Mas o contraste não me esmaga – liberta-me; e a ironia que há nele é sangue meu. O que devera humilhar-me é a minha bandeira, que desfraldo; e o riso, com que deveria rir de mim, é um clarim com que saúdo e gero uma alvorada em que me faço.
A glória nocturna de ser grande não sendo nada! A majestade sombria de esplendor desconhecido... E sinto, de repente, o sublime do monge no ermo, e do eremita no retiro, inteirado da substância do Cristo nas pedras e nas cavernas do afastamento do mundo.
E na mesa do meu quarto absurdo, reles, empregado e anónimo, escrevo palavras como a salvação da alma e douro-me do poente impossível de montes altos vastos e longínquos, da minha estátua recebida por prazeres, e do anel de renúncia em meu dedo evangélico, jóia parada do meu desdém extático.
Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego, ed. Richard Zenith. Linda-a-Velha, Abril Controljornal, 2000.
Wednesday, April 13, 2005
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1 comment:
humm.. eu pensava k tinhas sido tu a escrever akilo, e francamente tava assustado, cm poderias escrever assim? Mas dps la vi em baixo Fernando Pessoa.. Ja suspirei. Afinal d contas n desejo mal a ninguém, nem mesmo a ti (risos). Ah, sim, não falo a sério. Grande 'Nando pá! Embora eu prefira ler da tua autoria. =D
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